Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Como Salvar o Mundo

Esses seres humanos que dormem ao relento sobre papelões, tampados com jornais ou, com sorte, com um velho cobertor, são os miseráveis, os excluídos, os esquecidos, os que já não merecem ou fingimos não merecer a nossa atenção. São como animais que na maioria das vezes desviamos o olhar, pois a nossa “humanidade”, que não morre dentro de cada um, insiste em nos lembrar como de certa forma cada um de nós é responsável por esse ser humano, e com vergonha de nós mesmo é que desviamos o olhar. Mas nós ficamos a nos perguntar: “mas o que eu poderia fazer?” Bom, o engraçado é que nós poderíamos salvar o mundo, mesmo fazendo muito pouco. Não se engane achando que não existe solução ou que ela virá através de grandes movimentos ou programas institucionais, não, o mundo só pode ser salvo através de você por micro salvamentos, que podem se realizar a cada novo dia. Esses dias, junto com alguém que amo, de madrugada, coloquei um cobertor sobre um desses esquecidos, o que foi muito pouco, mas como eu já disse antes, na verdade foi tudo. E o que tantas outras pessoas podem confirmar é que o sentimento de ajudar outro semelhante é provavelmente o mais puro e verdadeiro sentimento de felicidade que alguém pode experimentar. Mas, por agora, vamos voltar a trabalhar, pois temos mais o que comprar. 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Caridade

Caridade não é distribuir o seu excedente, caridade é não usurpar o pouco que já se possui. Doam-se alguns reais para projeto A ou B mas vive-se por outro lado sobre o sangue e o suor de outros.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Wu Wei

    Muito da essência do tao está na arte do wu wei (agir pelo não-agir). No entanto, isso não significa "espere sentado que o mundo caia no seu colo". Essa filosofia descreve uma prática de se realizarem coisas através da ação mínima. Pelo estudo da natureza da vida, você pode influenciar o mundo do modo mais fácil e menos disruptivo (usando a sutileza em vez da força). A prática de seguir a corrente em vez de ir contra ela é uma ilustração: uma pessoa progride muito mais não por lutar e se debater contra a água, mas permanecendo quieta e deixando o trabalho nas mãos da correnteza.

    O wu wei funciona a partir do momento em que confiamos no design humano, perfeitamente ajustado para nosso lugar na natureza. Em outras palavras, confiando na nossa natureza em vez da nossa racionalidade, nós podemos encontrar contentamento sem uma vida de luta constante contra forças reais e imaginárias.

    Uma pessoa pode aplicar essa técnica no ativismo social. Em vez de apelar para que outros tomem atitudes relacionadas a uma causa, seja qual for a sua importância ou validade, ela pratica uma vida de acordo com o que acredita, "não remando contra a maré". Ao deixar sua crença se manifestar em suas ações, está assumindo sua responsabilidade pelo movimento social em que acredita.

Fonte: Wikipedia

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ideais

Para Baudrillard na atual sociedade de consumo a realidade é um local onde somente a ideia será consumida, a cultura da ideia de cultura, e não a própria cultura, ou a ideia de revolução, mas não a própria revolução e assim sucessivamente. Vide as pseudo revoluções e campanhas disseminadas através das redes sociais. Ficam tão somente no campo das idéias.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O que faz sentido

Para descobrir um sentido, temos de  discutir tudo o que não faz sentido.

Estamos rodeados por objetos que são atrativos, que são eficazes, etc... mas que não fazem sentido.

Mas por outro lado, uma obra de arte tem um sentido, muitos sentidos ou provoca em min um sentimento, uma emoção que dá sentido a vida, coisa que o produto tecnológico não faz.

E por outro lado temos a obrigação de redescobrir a verdade fundamental, coisa que a tecnologia não faz. Podemos chamá-la de valores, de valores importantes, essenciais, para que o homem prove que a vida vale a pena.

Jaques Ellul - A Traição pela Tecnologia.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A ilusão de todos nós

Observando o mundo hoje e como as pessoas tem vivido, não consigo, ou me esforço muito para encontrar uma, apenas uma pessoa que se possa dizer com todas as palavras: está ai um seguidor de Jesus Cristo. Diferentemente disso o que existe são pessoas que vão a igreja todo o domingo, pagam rigorosamente em dia o dízimo, possuem aquele comportamento totalmente condicionado e esperado, as mesmas opiniões conservadoras de sempre, desaprovam o homossexualismo e o sexo fora do casamento, e todas as outras regras ditas "cristas", mas fora esses regulamentos que possuem aparência de sabedoria com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e rígida disciplina para com o corpo (Colossenses 2:23) não realizam qualquer diferença positiva no mundo.

Vejo esses ditos seguidores de cristo com dois ou mais carros na garagem, morando em mansões, vivendo às custas do suor de seus empregados e que vêem seu próximo passando fome e morando nas ruas e não fazem nada, mas tem a sincera ilusão de que a sua rigorosa frequência em sua agremiação religiosa e a crença em determinadas doutrinas os torna, de alguma forma milagrosa, seguidores do Nazareno.

Falo isso sobre os outros, mas principalmente sobre min mesmo. É por isso que não ouso dizer que de alguma forma sou parecido ou sigo os passos do Filho do Homem, seria uma blasfemia. E aconselho isso também a todos os outros que se acham cristãos: analisem sem preconceintos as palavras de Jesus, reflitam em como tem vivido as suas vidas, e se a cada mil podermos encontrar um que realmente segue Seus ensinos então já será um milagre.

Todos somos mentirosos, mas sejamos o mínimo decentes possível e vamos deixar de macular o legado e a pessoa de Jesus Cristo. Não exijo que ninguem largue tudo o que tem para viver em amor ao próximo, que abandone seu ego e suas vontades para fazer a vontade de seu próximo, que pense primeiro no outro ao invés de si, mas por tudo que é mais sagrado: não vamos nos autodenominar cristãos, é o minimo que podemos fazer.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Debates x Vivência

Eu discutindo com as pessoas sobre a abragência (ou não) da graça, se o cristão pode ou não praticar A ou B comportamento, apontando os enganos das outras religiões ou das vertentes cristãs, tentando decifrar Jesus, tentando entender o que Ele tinha a dizer e por ai a fora, enquanto meu avô, espirita, oferecendo remédios, roupas, comida, consolo, amor, passes, entre outros, entra mais cedo no reino do céus do que qualquer cristão mais assíduo em suas tarefas e presença na igreja que eu ja tenha conhecido... alem de min, of course.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Momentos

Para evitar essa barra, vivemos eternamente entediados e distanciados do momento, esmagados pela claríssima convicção de que poderíamos estar fazendo algo mais legal, mais bem-remunerado ou mais útil para o bem da humanidade. Vivemos, pela mesmíssima razão, eternamente distantes de Deus e das pessoas.


Por Paulo Brabo em Bacia das Almas

Variedade Paralisante

Nos dias de hoje temos muito, mas paradoxalmente, nos sentimos mais insatisfeitos. A mensagem passada dia após dia, pelo mercado, pela propaganda e por nossos heróis contemporâneos, é de que quanto mais você tiver, quanto mais comprar mais realizado será. Como alguns já começam a perceber, tal mensagem, que de início parecia ser a solução de todos nossos problemas, parece não estar surtindo efeito algum. Os mais sábios e divinos homens não foram aqueles que tinham muito mas não conseguiam aproveitar tudo, mas foram àqueles que viveram com o mínimo, ou ainda, com somente aquilo que podiam carregar com suas próprias forças, ou seja, a roupa de corpo e uma trouxa no máximo, mas que viviam intensamente suas vidas. Hoje com tantas escolhas à nossa disposição não sabemos escolher, é engraçado. Com tantas peças de roupas disponíveis ficamos indecisos e no final não satisfeitos com a escolha realizada. Talvez seja o tempo de repensarmos nosso modo de vida e buscar como exemplo os homens que viveram a vida mais sincera e divina que alguem já viveu, como um tal de Jesus. As casas estão cada vez mais atulhadas, mas a alma cada vez mais vazia e sem perspectivas. Deveriamos, por mais estranho que isso possa soar, buscar menos e viver mais.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Você Escolhe

   O ser humano, ao longo dos tempos, sempre avaliou a si mesmo e aos outros pelo ter e não pelo ser. Jesus foi o primeiro a desfragmentar tal pensamento limitado vivendo a vida da forma mais plena que alguem já viveu. Não tinha o que trancar e considerava isso, apesar de tudo o que conhecermos dizer o contrário, uma bem-aventurança. Mas nós aprendemos desde criança: tempo é dinheiro, e esse move o mundo. Quem em sã consciência iria escolher viver como o exemplo divino? Não vivendo de esmolas, mas procurando ser em primeiro lugar. Eu é que não, aliás não está mais aqui quem falou!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Fatos e Aprendizados

E enquanto céticos e crentes discutem circularmente sobre a factualidade dos milagres, deixamos de considerar o que consideraram gerações e gerações de cristãos: o que os milagres da narrativa bíblica tem a nos ensinar. Qual é o seu significado. O que representam. Quais são suas implicações na vida real, na minha vida e na sua.

Nosso literalismo, que alimentamos na esperança de preservar o conteúdo da mensagem bíblica, termina por sufocá-lo e apagá-lo por completo. Ficamos discutindo que se Jesus não nasceu literalmente de uma virgem, se não foi concebido literalmente pela divina semente portando o divino DNA, não pode ser tomado legitimamente como Filho de Deus – e perdemos de vista a maravilha e o mistério de que a história conte que o filho crucificado do carpinteiro tenha angariado a fama de filho de Deus, e a tenha angariado também para nós. Argumentamos que Adão e Eva devem ter sido personagens reais abocanhando uma fruta literal, do contrário desmoronaria por completo o edifício do Pecado Original e seu magnífico anexo, o da Redenção – e nisso deixamos de ouvir a história, que conta como a divina misericórdia soube abraçar com toda a maturidade as contradições da liberdade e os horrores sagrados do amor.

Por Paulo Brabo, via Bacia das Almas

terça-feira, 10 de maio de 2011

Assim Vivem os Homens



   Tolsoi dizia que existem três conceitos de vida, dois pelos quais a humanidade já passou, que são o modo de vida animal ou pessoal onde o ser visa apenas seus interesses e vontades individuais; o da vida social onde busca os interesses de seu grupo: família, tribo, sociedade, Estado, Nação e etc; e o terceiro, o qual passamos hoje (ou deveriamos passar), com o cristianismo: a vida universal ou divina onde cada ser humano compreende a beleza e o significado da vida não em si mesmo ou em seus chegados, mas em cada ser humano que carrega uma centelha divina, em toda a obra. Tal modo de vida foi proposto e ensinado por Jesus a dois mil anos atrás, Ele já compreendia a nova forma de vida que a humanidade precisa aprender para viver, deixando para trás os outros dois modos simplistas e pobres de se viver.

   Eis que passaram milênios e alguns de nós ainda vivem como os mais ancestrais e brutos dos homens: buscando apenas o seu prazer pessoal. Sua vida é o niilismo em sua forma mais perfeita, pois cada ação, pensamento, e sua forma de vida em si é a busca de sua satisfação, de seu prazer. Alguns menos outros mais, mas ainda sim o modo de vida animal. Não importa o que o Outro sente, mas apenas o que eu sinto. Não importa se minhas ações podem prejudicar alguém ou que conseqüências tiveram, se entristeceram alguém, o que importa em últimos casos é se me trouxe prazer.

   O que interessa é os seus interesses ou os do seu grupo, quero que os interesses: do meu estado, nação, partido político, amigos, classe profissional, família, ideologia e etc. prevaleçam em detrimento dos outros. Os mais atrasados vivendo apenas para si, alguns mais a frente buscando os interesses dos seus, mas achar algum louco vivendo pela vida, pela universalidade, por toda a humanidade é pedir demais, quase um absurdo diria o niilista convicto.

   Jesus a milhares de anos a frente de seu tempo já ensinava a nova etapa da vida pela qual a humanidade deveria viver a partir daquele momento: a forma de vida fraterna e divina, cada um buscando viver para o próximo, não viver para ser servido mas viver para servir, pois esse modo de vida garantia Ele, é a única forma honesta e verdadeira pela qual podemos encontrar a vida e felicidade verdadeira. Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, e qualquer que a perder, salvá-la-á. (Lucas 17:33). E saia por ai proclamando para quem estivesse disposto e apto para ouvir: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O problema do materialismo

   Mafalda e Miguelito, assim como chamo os gatos lá em casa mas nem lembrava de onde tinha tirado esse nome.

   A minha cisma com o materialismo não é “apenas” porque excluí de plano a existência de qualquer coisa que não seja tangível, como a fé e Deus, o valor das histórias fantásticas, os contos e etc. coisas essas que são realmente importantes e dão um sentido e significado maior às nossas vidas. Como se não bastasse isso, o materialismo se mostra altamente destrutivo à humanidade e ao planeta. A ideologia materialista diz que tudo o que existe é o que se pode tocar, ver, sentir, ouvir ou cheirar, se não se encaixar em uma dessas situações nesse sistema fechado não vale a pena dar valor ou pior: não deve nem tomar o seu tempo, já que isso não existe... simples assim.

   Talvez essa forma de ver o mundo faça jus ao modo de vida da maioria das pessoas em nossa sociedade atual: superficial e simplista. O problema, e que às vezes nos passa despercebido, é que ao ver o mundo dessa forma só damos valor ao que é material: roupas, carros, marcas, aparência, status, dinheiro e etc. Ser bem sucedido não é ter lucidez e não se entregar à estupidez, é ter um Audi A3 como canta a banda forfun. O sujeito pode até ser honesto e decente mas se não tem posses não é alguém em que devemos nos espelhar, já o espertinho que dá um jeitinho brasileiro para enriquecer ah! Quem me dera ser tão esperto! Os valores são tão distorcidos que a pessoa que tem alguma virtude tem até vergonha do que vão dizer de sua honestidade... honestidade uma ova isso é burrice, o mundo é dos espertos.

   Estava conversando com uma colega de trabalho agora que estava lendo na internet blogs de meninas anorexas que encorajam umas às outras em sua luta para alcançar a magreza extrema. Essa colega que está se formando em psicologia me explicou que essas meninas se vêem no espelho como pessoas gordas, alucinações mesmo do nível de uma pessoa paranóica. Eu não quero dizer que apenas a nossa visão materialista de mundo é que causa isso, mas eu tenho certeza que os reflexos estão ai. Você liga a televisão e é bombardeado por propagandas que mostram que só é feliz quem consome e quem tem aquele tipo exato de forma física, seus valores ficam em segundo plano. Mulheres boas pra casar mesmo são as do tipo fruta já o homem quanto mais rico melhor.

   Ao viver dessa forma esquecemos de valorizar às coisas que realmente importam em nossas vidas: a amizade, o amor, a lealdade, a honestidade, a humildade, a generosidade, a sabedoria e também a aquilo tudo que realmente nos torna felizes e não está à venda nas prateleiras, como um abraço forte e um palavra confortadora no momento difícil e não um carro novo. A fé, o alimento da alma, é jogada pra escanteio.

   Não custa deixar claro apenas pra não gerar confusões que consumir o necessário não é nenhum problema. Algumas pessoas tem problema pois não conseguem consumir nem o alimento. O problema é quando o consumo, os bens materiais e a estética viram o nosso objetivo de vida.

E chamando a si a multidão, com os seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me.
 
Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas, qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará.

Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?
Evangelho de Marcos capítulo 8 versículos 34, 35 e 36.

quarta-feira, 16 de março de 2011

A ansiedade das coisas

   Em tempos mais sãos do que o nosso um homem começava a sentir nostalgia quando estava avançado na terceira idade, entrevendo já a última curva da vida. Hoje em dia a nostalgia é motivo de ansiedade para todos, democraticamente; até mesmo os adolescentes, garantem-me, tem já saudades sentidas e irresistíveis dos tempos idos da infância.

   Não é na verdade coisa de se admirar, porque em tempos de mudança acelerada como o nosso muita coisa pode mudar nos três ou quatro anos informes que separam a adolescência da infância. Nostalgia é o clamor por pontos de referência que não existem mais, e na vertigem do século inúmeras referências perdem-se, transformam-se ou são substituídas em um ano ou dois, às vezes menos.

   Um adolescente pode olhar ao redor e constatar lucidamente que os programas de televisão são outros, o tipo aprovado de música é outro; os brinquedos, os filmes, os heróis – que tudo mudou desde a sua infância recente, pela qual passa a sangrar de nostalgia tão sincera quanto precoce. O mesmo é ainda mais válido para quem passou dos vinte ou trinta anos de idade; quem sobrevive vinte anos num mundo de mudança vertiginosa como o nosso é obrigado a encarar que a realidade mudou tanto a ponto de se tornar meramente reconhecível. Os pontos de referência ruíram, o vento levou, o gato comeu, e a mudança torna-se motivo de ansiedade, a velhice chega antes do meio da vida e a nostalgia consome e oprime.

   O motivo desta nota é lembrar, com inevitável nostalgia, dos tempos em que não era assim. Houve tempo em que o mundo girava sem se fazer notar e as manchas solares não causavam perturbação maior. As pessoas, conta-se, paravam para conversar e comer. Faziam coisas insensatas como serenatas e bilboquês. Nesta galáxia distante de que estou falando os seres humanos eram tão pouco materialistas que podiam dar-se ao luxo de apegar-se a coisas e, para que não tivessem que se preocupar muito com elas, as coisas eram feitas para durar.

   Com cinqüenta anos de idade um homem ganhava o relógio ou o violino do avô, e orgulhava-se de poder colocá-los em uso imediato; com setenta anos, o sujeito usava ainda a caneta ou o serrote que tinha sido do seu pai. Coisas como bengalas, máquinas de escrever, escrivaninhas e panelas, abridores de cartas e até mesmo roupas tinham a sua utilidade prolongada por gerações. Os mecanismos eram menos complexos e as coisas podiam ser eficazmente consertadas. As pessoas lubrificavam as coisas, trocavam seus cabos, lixavam e poliam.

   Como não saltavam na nossa cara exigindo serem trocadas, as coisas tinham um status menor e não eram motivo de ansiedade. Como sobreviviam às pessoas, algumas coisas transcendiam a sua condição e ficavam para sempre ligadas a um ser humano em particular: as pessoas acenavam com “o facão do meu bisavô”, “a poltrona da minha avó”.

   Hoje em dia, e sem qualquer hipérbole necessária, um sujeito de vinte anos já perdeu a conta de quantas vezes trocou de modelo de telefone celular: o seu próprio telefone celular. Salvo como curiosidade, nada sobrevive a uma geração; nada com mais de dez anos é concebivelmente útil.

   O paradoxo é que, como tudo que está disponível é tão irreversivelmente novo, tudo torna-se obrigatória e imediatamente velho. Mais do que nossos bem-intencionados avós poderiam imaginar, a abundância do novo deixou-nos cercados de coisas invariavelmente velhas e envelheceram as nossas almas. Das velhas fotografias, eles nos olham com peles e olhos mais jovens do que jamais chegaremos a ter.

~~~~~~

Mais uma vez um texto fora do comum do Paulo Brabo da  Bacia das Almas, isso já está virando comun agora que ando sem tempo inspiração para postar alguma coisa.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Profeta e a Revolução

Fui a Jaraguá do Sul visitar um cliente, coisa que raramente faço, e fui de terno e gravata, coisa que jamais voltarei a fazer. Quando sai da fábrica era o meio da tarde e pensei em dormir numa pousada em Pomerode, depois de encher a carne na Torten Paradis e beber uma imaculada série de Weiss no deque da cervejaria Schornstein.

Eu já estava em Pomerode, naquele cruzamento na frente da delegacia, quando olhou-me de repente a placa da saída para Timbó; lembrei-me inevitavelmente de Rio dos Cedros e de seu profeta, e decidi alongar a viagem por meia hora – ver se encontrava coragem para encarar novamente o homem que olhou o pecado no meu rosto e não viu nada de mais no que viu.

Avancei sem parada na tarde oblíqua e dourada, cruzando arrozais de um verde-limão inclemente e casinhas vermelhas encravadas em jardins de rosas. Quando fechei atrás de mim a última porteira e fiz o Corsa descer crepitando a curva ladeada de jerivás, faltava pouco para as seis da tarde.

Eu havia tirado meias e sapatos assim que entrara no carro, portanto antes de sair só afrouxei a gravata e enrolei duas vezes a barra da calça. Caminhei descalço pelo caminho de lousa até o portãozinho da cerca do jardim, gritei ô de casa, e quando venci os dois degraus da varanda já havia terminado de dobrar até os cotovelos as mangas da camisa branca.

Todas as portas e janelas da casinha de madeira estavam abertas, pelo que demorei a entender que estava vazia. Na varanda de trás (dei a volta por fora) encontrei uma mesa de madeira maciça, um fogão a lenha e um tanque escavado em pedra, abastecido sem trégua pela água de um aqueduto de meia taquara que desaparecia em direção ao morro vizinho. Retirei uma caneca de metal do prego em que pendia e bebi.

Devolvi a caneca, ponderando voltar para o carro e refazer o caminho, anulando por completo aquela tentativa e ganhando pontos para dizer um dia estive aqui e você não estava. Olhei o relógio do celular: cinco e quarenta e quatro. Decidi ir embora imediatamente e em outra ocasião explicar que havia esperado em vão das cinco e meia até as seis. Nesse ponto, no interior da casa, alcançou-me da mesa da cozinha uma visão potente o bastante (talvez a única) para me fazer abandonar o plano de fuga: uma pilha de livros.

O profeta de Rio dos Cedros entrou em casa meia hora depois, batendo uma contra a outra as solas de suas botas de borracha, e encontrou-me lendo fábulas de La Fontaine na mesa da sua cozinha. Os outros livros eram Sobre a origem da desigualdade, de Rousseau, A origem da família, da propriedade privada e do estado, de Engels, Almas Mortas, de Gogol e – o único que eu ainda não havia lido – o panfleto de quatro páginas Teses sobre Feuerbach, de Marx.

– Brabo, você voltou – ele disse, e parecia sinceramente feliz, mas antes de entrar lavou no tanque lá fora as mãos, os pés e uma braçada de raízes de aipim que trouxera numa sacola.

– Meu amigo proletário João do Pó! Desculpe aí ir entrando desse jeito – eu disse, mas ele desconsiderou com um balanço da cabeça e produziu de detrás de uma cortina estampada uma gamela com ameixas vermelhas e pêssegos.

Dez minutos depois as mandiocas cozinhavam no fogão e cada um de nós tinha diante de si um copo com partes iguais de Campari, gelo, vinho branco barato e água com gás, consagrados com uma fatia de laranja.

– E eu que não tinha lido esse livrinho de Marx – eu disse, querendo desviar a conversa. – Quando vi a casa vazia estava decidido a ir embora, mas tive de ficar pra falar com você sobre ele.

– Confesso que não li nada desse teólogo de quem Marx está falando, mas parece que não é preciso ter lido para entender.

– Você vai gostar de Feuerbach, mas sim, Marx está aparentemente falando consigo mesmo – puxei o panfleto do topo da pilha de livros e deixei que abrisse pousado na minha mão aberta. – A prática revolucionária. Eu não conhecia esse lado politizado de João do Pó.

Ele limitou-se a sorrir e sorver um gole.

– Pelo que entendi Marx está enfezado com o materialismo – ele opinou, – que embora seja a mais desiludida e terra-a-terra das ideias, ainda assim não passa de uma ideia. Nada no mundo dos conceitos basta para produzir a prática revolucionária que pode mudar o mundo, et cetera.

– Exato. Até aquele ponto a história da filosofia havia representado uma revolução arquival, por assim dizer. Os filósofos tinham em seu favor haver catalogado todos os problemas, todas as causas e todas as soluções, mas nada daquilo corria o risco de vazar dos arquivos das ideias para o mundo real.

– Como é mesmo que ele diz no final? – ele riu consigo mesmo, passando a mão pela cabeça raspada. – A última coisa?

– “Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de maneiras diferentes” – eu li, imprimindo o devido drama ao cenário de dois homens discutindo filósofos mortos numa casinha de madeira no meio do nada debaixo de um céu límpido orlado por iminentes tempestades de verão. – “A questão, porém, é transformar o mundo.”

– É quase “a fé sem obras é morta”, não é verdade? – ele provocou, e ignorei a provocação.

Nesse momento a luz na cozinha piscou duas ou três vezes antes de apagar por completo, e ouvimos a geladeira tremer e silenciar. Agora só se ouviam os sapos que malhavam ferros no banhado entre o morro e a casa.

– Está sempre chovendo em algum lugar – ele lembrou.

– O bastante para sempre apagar a luz de outro – eu disse, e coloquei o celular em cima da mesa para que ele nos cinzelasse minimamente com sua vigília azul.

– Enfim – ele disse, brincando com a tampa de Campari como se quisesse fechar a garrafa, sem nunca chegar a concluir a tarefa, – houve uma época em que o que a revolução desejava era remover um sistema estabelecido de coisas e colocar outro sistema no lugar. Se a realidade resistisse à mudança, como costumava fazer, para promover a revolução era tido como necessário apelar para a violência.

– Como assim, “houve um tempo”? Não é mais assim?

– Faz algum tempo que não – ele olhou-me muito sério para confirmar. – O capitalismo, que se apropria de tudo e reverte em seu favor, apropriou-se por inteiro do discurso da revolução.

– Che Guevara é uma marca numa camiseta que você quer comprar.

– Justamente – ele ajeitou-se na cadeira, – mas não só isso. A revolução está em todo lugar; impossível agora é escapar dela. A mudança é o presente sistema, e o capitalismo se alimenta precisamente disso. Hoje um produto é que é “revolucionário”. A internet é revolucionária. Os conservadores costumavam ser os que resistiam à mudança; hoje em dias, conservadores são os que creem que a mudança é a única coisa que existe.

– Tornando dessa forma a verdadeira revolução impossível.

– Não completamente. Hoje em dia para fazer violência ao sistema é preciso rejeitar a mudança em vez promovê-la.

– Uma violência de abstenção? – bebi um gole para dissimular um mal-estar que eu sabia só tendia a crescer.

– Para fazer violência contra a revolução do capitalismo é preciso abrir mão da revolução. É preciso escolher as margens. É preciso pisar para fora do sistema.

Ele silenciou, arrependido do uso excessivo de ênfases, mas aparentemente muito interessado na minha reação.

– Não me parece muito eficaz a sua revolução – fiz com um copo um gesto que abarcava a propriedade. – Você não tem televisão em casa, mas um bilhão de brasileiros está assistindo o Big Brother.

– É como uma revolução qualquer – ele relaxou na cadeira. – Para que funcione é preciso ver mais gente aderindo à violência contra o sistema. Abster-se da revolução é agora a prática revolucionária.
Baixei o copo e ponderei um longo tempo o que queria dizer.

– Nas revoluções anteriores era muito fácil conseguir a adesão das massas, porque o novo sistema a ser implantado oferecia vantagens muito evidentes. Já ninguém vai querer abrir mão da tecnologia e do capitalismo, como você faz, porque não há vantagem nenhuma nisso. Nenhuma vantagem evidente, quero dizer.

– O problema é que o capitalismo é uma revolução que esconde os próprios custos. É um produto que cada um deve vender a si mesmo, por assim dizer, um dia após o outro. E todos compram, porque o dia seguinte depende dessa venda.

– Tenho de reconhecer – baixei a voz, mas foi sem querer, – que a mais simples das operações, que é manter-se vendável (isto é, manter-se produtivo), requer o espaço da vida inteira. Mas, para quem está dentro, apenas o custo de sair do sistema parece maior. Tecnicamente todos sabem que não precisam de um novo celular, mas a revolução é exigente. E talvez por isso irresistível.

– Você entende agora por que O Senhor dos Anéis é uma metáfora tão adequada para o nosso tempo? – ele finalmente fechou a garrafa e colocou-a de lado. – Entende por que a trilogia de Tolkien exerce um fascínio tão grande, mesmo sobre os que não sabem articular a coisa nos nossos termos?

Levantei as sobrancelhas, sinceramente embaraçado, porque não via a conversa tomando aquela direção.

– Não tenho certeza – concedi. – A coisa que mais gosto no livro é que a solução corporativa falha miseravelmente, e o herói remanescente e eficaz só sobrevive inteiramente marcado pela amargura.

Ele sorriu.

– É formidável, mas não é disso que estou falando.

– E do que estamos falando?

– Da revolução – João do Pó cortou mais uma fatia de laranja e derrubou no seu copo. – Tolkien moldou sua história a partir dos grandes épicos e clássicos que tanto admirava, mas com uma diferença. As antigas epopeias narravam a busca por algum objeto poderoso, e as dificuldades que os heróis encontravam no caminho.

– Entendi – senti o rosto queimar, mas entendi também que o profeta faria questão de articular por completo o seu argumento.

– O Senhor dos Anéis é precisamente o contrário. Se você pensar, é uma anti-busca. O desafio dos heróis é destruir um objeto poderoso, não encontrá-lo.

– E fica demonstrado que não é nada fácil.

– Especialmente porque o poder representa uma tentação para os próprios heróis. Quem vai querer abrir mão de um artefato que representa uma vantagem tão evidente?

– Pouca gente – concordei. – E mesmo os que o fizerem estarão marcados para sempre pela tentação de possuí-lo.

– O desafio da nossa era – ele disse – não é outro.

Nesse momento um vaga-lume aceso, que não tínhamos notado quando entrara, voou ao redor de nós como uma fada e pousou precisamente no topo da garrafa que nos separava.

Calamos os dois, o pensador de gravata e o pensador com terra debaixo das unhas das mãos. Estávamos ambos descalços, e de fato nossos pés se tocavam sem grande constrangimento debaixo da mesa, mas aparentemente não seguíamos para o mesmo lugar. Ou a mesma pessoa.

Então, pela moldura de tela que protegia a porta aberta da frente, vi que alguém se aproximava pelo pasto escuro guiado por uma lanterna.

– Você está esperando alguém para jantar? – eu perguntei, e meu tom, para meu embaraço, foi quase de repreensão.

– Nunca espero ninguém, mas isso não quer dizer que qualquer um não possa chegar – ele explicou, e ouvimos que se abria o portãozinho do jardim.

Cinco minutos mais tarde esvaziei o copo, pedi licença e lembrei que estava na hora de ir indo.

Autor: Paulo Brabo postado em Bacia das Almas

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Morte aos Comentaristas


   O cerne da mensagem do Reino, conforme enunciado por Jesus, é tão escandalosamente revolucionário e exigente que nós cristãos tratamos de aparar suas arestas mais escandalosas (todas elas), de modo a que ele não pudesse causar estrago e constrangimento a ninguém – em especial a nós mesmos.

   Como resultado desse eficaz trabalho de domesticação, todo o tipo de barbaridade foi e é efetuado pelos cristãos em nome de Deus – mas, como aprendi com o Serqueira, sem firma reconhecida. Desnecessário olhar para trás e contemplar as Cruzadas. Nos nossos dias aquele que reivindica para o si o título de país mais Verdadeiramente Cristão™ da Terra é também o mais beligerante e consumista – sendo que a proclamação do o Reino exige de forma inequívoca e intransigente o baixar de armas e a simplicidade de vida.

   Os fundamentalistas evangélicos norte-americanos, defensores últimos da integridade do evangelho, sustentam que é horrenda ofensa não crer na Bíblia literalmente. Eles de fato crêem literalmente, mas de forma cuidadosa e seletiva: isto é, quando lhes convém.

   Os fundamentalistas e seus asseclas crêem que o Gênesis está falando em dias literais quando afirma que o mundo foi criado em sete dias; mas ensinam que Jesus não estava falando numa espada literal quando sentenciou: “Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão”. O nascimento virginal de Jesus deve ser entendido literalmente e seria blasfêmia sugerir o contrário; mas já Jesus não deve ser entendido literalmente quando nos convida a amar os inimigos, a emprestar sem esperar receber de volta, a oferecer a outra face, a dar liberalmente a quem pedir, a renunciar a toda pretensão de poder, a colocar o outro em primeiro lugar, a não ajuntar tesouros na terra, a renunciar a tudo para segui-lo, a nos fazermos frágeis e despretensiosos como criancinhas, a dar a vida pelos amigos.

   Mais fácil é fazer-se de louco e ater-se, como fazemos invariavelmente, a lateralidades. Ninguém quer se dar ao luxo de ponderar que talvez o evangelho seja incompatível com o belicismo, a acumulação insana de bens, o egocentrismo institucional e o capeta-lismo (como dizia o velho profeta carioca Gentileza). O que Jesus disse é, na prática, irrelevante à nossa pretensão de sermos seguidores dele. Estamos protegidos do Indomável pela nossa interpretação à prova de balas das suas palavras.

   Naturalmente, estou chovendo no molhado quando falo sobre esse assunto – e olhe que volto sempre a ele. Se, falando da forma mais clara, o aclamado Søren Kierkegaard não conseguiu abrir os olhos da galera, não serei eu. Já no século retrasado, e por excelentes razões, Kierkegaard exigia a cabeça dos que fazem de intermediar o significado da Bíblia sua profissão.

* * *

MORTE AOS COMENTARISTAS

   A enorme quantidade de intérpretes contemporâneos bíblicos tem prejudicado, mais do que auxiliado, nossa compreensão da Bíblia. Ao ler os comentaristas tornou-se necessário fazê-lo como quem assiste uma peça durante a qual a profusão de espectadores e de luzes impede, por assim dizer, que desfrutemos da peça em si – e somos premiados ao invés disso com pequenos incidentes. Para assistirmos à peça temos de aprender a ignorá-los, se possível, ou entrar por um caminho que não tenha sido obstruído.

   O comentarista tornou-se, na verdade, o mais prejudicial dos intermediários. Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário. Pense em dois amantes. A amante escreve uma carta ao seu amado. O amado está por acaso interessada no que os outros acham da carta? Não irá lê-la sozinho? Em outras palavras, nunca lhe passaria pela cabeça lê-la com o auxílio de um comentário. Se a carta da amante estivesse escrita num idioma que ele não compreende – ora, ele por certo aprenderia a língua, mas com certeza não a leria com a intermediação de comentários. Esses de nada adiantam. O amor pela sua amada e sua prontidão em satisfazer os desejos dela tornam-no mais do que capaz de compreender a carta. É o mesmo com as Escrituras. Com a ajuda de Deus podemos entender a Bíblia muito bem. Todo comentário deprecia, e a pessoa que senta-se com dez comentários abertos e lê a Escritura… está provavelmente escrevendo o décimo-primeiro. Não está por certo lidando com as Escrituras.

Se você deseja entender a Bíblia, certifique-se de lê-la sem um comentário.

   Suponha agora que essa carta da amante possua o atributo único de que cada ser humano é o amado a quem ela se dirige. E agora? Deveríamos por acaso sentar e conferenciar um com o outro? Não, cada um de nós deveria ler essa carta apenas como indivíduo, como indivíduo singular que recebeu essa carta de Deus. Ao lê-la, estaremos preocupadas em primeiro lugar com nós mesmos e com nosso relacionamento com ele. Não concentraremos nossa atenção na carta em si, no fato de que essa passagem possa ser interpretada de uma forma e esta de outra – de forma alguma: o importante para nós será agir, e o mais cedo possível.

   Não é então algo singular ser o amado, e não nos dá esse algo uma vantagem que nenhum comentarista possui? Pense a respeito. Não somos nós os melhores intérpretes das nossas próprias palavras? E em seguida o amante e, em relação a Deus, o verdadeiro crente? Não devemos esquecer que as Escrituras são meras placas rodoviárias: Cristo, o amado, é o caminho. Morte aos comentaristas!

   A questão é simples. A Bíblia é muito fácil de entender. Mas nós cristãos somos um bando de vigaristas trapaceiros. Fingimos que não somos capazes de entendê-la porque sabemos muito bem que no minuto em que compreendermos estaremos obrigados a agir em conformidade. Tome qualquer palavra do Novo Testamento e esqueça tudo a não ser o seu comprometimento de agir em conformidade com ela. Meu Deus, dirá você, se eu fizer isso minha estará arruinada. Como vou progredir na vida?

   Aqui jaz o verdadeiro lugar da erudição cristã. A erudição cristã é a prodigiosa invenção da igreja para defender-se da Bíblia; para assegurar que continuemos sendo bons cristãos sem que a Bíblia chegue perto demais. Ah, erudição sem preço! O que seria de nós sem você? Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. De fato, já é coisa terrível estar sozinho com o Novo Testamento.

Terrível coisa é estar sozinho com o Novo Testamento.

   Abro o Novo Testamento e leio: “Se você quer ser perfeito, venda todos os seus bens e dê aos pobres, e venha me seguir”. Meu Deus, se fôssemos de fato fazer isso, todos os capitalistas, todos os funcionários públicos e empreendedores, toda a sociedade na verdade, seríamos reduzidos à condição de quase mendigos! Estaríamos em maus lençóis não fosse a erudição cristã! Louvado seja todo aquele que trabalha para consolidar a reputação da erudição cristã, que ajuda a refrear o Novo Testamento, esse livro perturbado que passaria por cima de nós uma, duas, três vezes se andasse à solta (quer dizer, se a erudição cristã não o refreasse).

   O que precisamos realmente, portanto, é de uma reforma que coloque até mesmo a Bíblia de lado. Sim, isso teria hoje em dia a mesma validade que teve o rompimento de Lutero com o papa. A presente ênfase em “voltar à Bíblia” tem, infelizmente, criado religiosidade a partir de uma trapaça erudita e literalista—mera manobra de diversão. Tragicamente, esse tipo de conhecimento tem gotejado gradualmente sobre as massas, de modo que hoje em dia ninguém é mais capaz de simplesmente ler a Bíblia. Todo nosso saber bíblico tornou-se nada além de uma fortaleza de desculpas e escapes. Quando se trata de existência, de obediência, há sempre algo de que devemos cuidar antes. Vivemos sob a ilusão de que devemos primeiro ter a interpretação correta ou a crença em sua forma perfeita antes de podermos começar a viver – quer dizer, nunca chegamos a fazer o que a Palavra diz.

   A igreja vem há muito precisando de um profeta em temor e tremor que tenha a coragem de proibir o povo de ler a Bíblia. Sou tentado, portanto, a fazer a seguinte proposta. Coletemos todas as nossas Bíblias e juntemo-las em algum lugar aberto ou no alto de uma montanha e então, enquanto todos ajoelhamos, alguém fale com Deus da seguinte maneira:

“Leve esse livro de volta. Nós, cristãos, tais como somos, não somos aptos a nos envolver com tal coisa; ela apenas nos torna orgulhosos e infelizes. Não estamos prontos para ela.”

   Em outras palavras, sugiro que nós, como os aldeões cujo rebanho de porcos arrojou-se na água e afogou-se, imploremos a Cristo que “retire-se de nós” (Mateus 8:34). Isso pelo menos seria um discurso honesto – algo muito diferente da erudição nauseante e hipócrita tão prevalente hoje em dia.

   Em vão a Bíblia comanda com autoridade. Em vão ela admoesta e implora. Não ouvimos – isto é, ouvimos a sua voz apenas pela intermediação/interferência da erudição cristã, dos especialistas que tiveram treinamento adequado. Da mesma forma que um estrangeiro exige os seus direitos numa língua estranha e ousa apaixonadamente dizer palavras ousadas ao enfrentar autoridades do Estado – mas veja, o intérprete que deve traduzi-las para as autoridades não ousa fazê-lo, substituindo-as por alguma outra coisa – assim soa a Bíblia através da erudição cristã.

“Leve esse livro de volta.”

   Afirmamos que a erudição cristã existe especificamente para nos ajudar a entender o Novo Testamento, a fim de que melhor possamos ouvir a sua voz. Nenhum lunático, nenhum prisioneiro de estado foi jamais confinado dessa forma. No que diz respeito a eles, ninguém nega que estão trancafiados, mas as precauções contra o Novo Testamento são ainda maiores. Nós o trancafiamos, mas argumentamos que estamos fazendo justamente o contrário, que estamos zelosamente engajados em ajudar a que ele ganhe clareza e controle. Por outro lado, naturalmente, nenhum lunático ou prisioneiro de estado poderia ser mais perigoso do que o Novo Testamento caso se permitisse que ele andasse à solta.

   É verdade que nós, protestantes, empreendemos grandes esforços para que cada pessoa possua sua própria Bíblia – até mesmo em seu idioma nativo. Ah, mas como são grandes os esforços para imprimir sobre todos a noção de que ela só pode ser compreendida através da erudição cristã! Essa é nossa situação atual.

O que tentei demonstrar aqui pode ser declarado sem dificuldade:

Tenho desejado fazer as pessoas darem-se conta e admitirem que acho o Novo Testamento muito fácil de entender, mas tenho encontrado até agora a maior dificuldade para agir de forma literal em conformidade com o que ele diz tão claramente. Talvez eu pudesse ter tomado outra direção; poderia ter inventado uma nova espécie de erudição, dando à luz ainda outro comentário, mas estou muito mais satisfeito com o que fiz – uma confissão sobre mim mesmo.

Søren Kierkegard, Provocations

Vi em: Bacia das Almas

sábado, 23 de outubro de 2010

Sim para ser, não para não ser!

 
 
   Quando Jesus diz “não”, é não. Quando Ele diz: “Faça assim”; é para assim fazer. Desse modo, veja quando Ele diz “não”.

   Não julgueis. Não atireis pérolas aos porcos. Não vos mostreis aos homens quando orardes, jejuardes ou derdes esmolas. Não andeis ansiosos de coisa alguma. Não os imiteis. Assim não é no meio de vós. Não foi assim desde o princípio. Não podeis servir a dois senhores. Não resistais ao perverso. Não vos vingueis a vós mesmos. Etc.

Veja também quando Ele diz “sim”.

   Sim! Seja misericordioso. Seja justo. Seja fiel. Seja solidário. Seja simples. Seja como uma criança. Seja vigilante. Seja sóbrio. Seja capaz do bem sempre. Seja dos que buscam o Reino de Deus antes de tudo. Etc.

Agora saiba:

Para cada “não” há uma total impossibilidade de que, em se buscando viver contra o “não”, se possa ser feliz. Não adianta. Quando Jesus diz “não” ninguém consegue violar e ser feliz.

Para cada “sim” há a total possibilidade de vida e felicidade abertos para quem ande conforme a proposta.

Obedecer adianta tudo...

Quem obedece a Palavra de Jesus segue o fluxo da vida, e isto é felicidade.

Agora releia os Evangelhos!

Não é não. Sim é sim. O que passa disso sempre vem do Maligno!

Texo do blog Caminho da Graça, autoria de Caio Fábio.

sábado, 28 de agosto de 2010

Quem Você Segue?



   Em nossa caminhada de vida cristã muitas vezes acabamos “perdendo-se” pelo caminho, podemos até não perder o caminho mas estamos trilhando pelo terreno errado. Através da nossa rotina de sempre ir à igreja, ouvir pregações, ler a bíblia entre outras coisas ditas religiosas (não ouvir isso, não falar aquilo e não agir daquela outra forma) acabamos que nos tornando muitas vezes religiosos hipócritas, isso mesmo, aqueles a quem Jesus vociferou as palavras de maior repugnância. Quem nunca esteve numa conversa com pessoas do “mundo” e pensou: “Ah! Ainda bem que não sou como essas pessoas.” Talvez não tenha pensando necessariamente isso mas no fundo tinha o mesmo significado. Ou talvez em determinados momentos achamos que somos os donos da verdade e que por conhecer a “vontade de Deus” e estar na igreja somos melhores que os outros ou ainda que podemos julgar a atitude de outras pessoas. Certos pecados nós toleramos sem problema algum e convivemos sem problemas: a ganância de algumas pessoas, a soberba de alguns que se acham melhores que o outro, o irmão que vive mentindo e enganando outras pessoas, a fofoca e os julgamentos que nosso amigo(a) faz de outras pessoas que muitas vezes, na maioria delas, são seus irmãos na fé, a total falta de humildade de outros. Vivemos nossas vidas achando que somos superiores e melhores do que os outros pois “conhecemos a verdade” ou porque não fazemos aquelas coisas más que as pessoas do “mundo” fazem.
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Mateus 23:27
   Eu já fiz tudo isso várias vezes. Quando a pregação é sobre assuntos como: homossexualismo, sexo antes do casamento, baladas entre outras, saí de baixo porque lá vem bomba. O irmão que vive mentindo e enganando muitas vezes as pessoas que “ama” nós aceitamos numa boa, mas ai de nós se ver um casal de homossexuais... Vivemos falando “Não existe pecadinho ou pecadão!” mas na prática julgamos sim alguns pecados como piores do que outros. Em situações diferentes ouvimos pessoas fazendo fofocas totalmente destrutivas e aceitamos numa boa, mais se descobrir que o casal de namorados vai ter um filho, saí de perto: que absurdo! Esses são só alguns exemplos de atitudes hipócritas e falsas que temos, mas existem diversos outros casos. Como Phillip Yancey falou em algum dos seus livros que eu já li, nós toleramos sem problema o divórcio, assunto sobre o qual Jesus manifestou-se claramente no novo testamento, mas quanto ao homossexualismo não podemos nem ouvir falar que já tacamos pedras mas Jesus não falou uma palavra sobre esse pecado, de certa forma acabamos sendo incoerentes. 

   Mas o ponto principal que quero tratar aqui não é esse. Não, Jesus não viveu julgando as pessoas, mas amou a todas de todo seu coração para tentar dessa forma mudar e transformar suas vidas. Vamos buscar viver como Ele viveu e lembrar dos seus mandamentos mais importantes irmãos:

Mestre, qual é o grande mandamento na lei?

E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento.

Este é o primeiro e grande mandamento.

E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas. Mateus 22:36-40
   Não vamos desperdiçar nossas vidas afastando cada vez mais as pessoas de Jesus, quando perguntamos para alguém sobre o que pensa da igreja geralmente ouvimos muitas críticas. Será que estamos seguindo os passos de Jesus realmente? Será que não somos cristãos apenas no falar mas na prática somos o oposto? Através da nossa vida estamos realmente resplandecendo o amor de Cristo?

   Essas palavras não são de julgamento ou acusação amigo, mas de amor. Não pretendo acusar ninguém com isso mas apenas abrir nossos olhos para qual é o verdadeiro e correto caminho para os que querem seguir Jesus. Se tento julgar alguém é apenas eu mesmo pois na maioria das vezes não faço isso que falei, mas busco com todas minhas forças e peço ajuda do Pai pra fazer a Sua vontade. Ore também ao Senhor Jesus e peça forças pra viver a vida fazendo a vontade Dele, sempre buscando amar o próximo e dessa forma tentar resplandecer a luz nas trevas. Eu tenho certeza que pelas nossas próprias forças jamais vamos alcançar esse objetivo, mas Cristo vive em nós e nada é impossível para Ele. Desejo a todos nós o desejo de buscar uma vida assim e também a orientação de Deus para poder alcançá-la.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Riqueza Vazia


   Para o rabi de Nazaré ser rico e ganancioso não é conduta especialmente corrupta ou perversa – está mais para o imbecil. Porque, ele ousa argumentar, correr atrás do material impede-nos precisamente de desfrutá-lo. O mais rastaqüera lírio do campo ostenta guarda-roupa mais exuberante do que o de Salomão; os pássaros banqueteiam-se e empanturram-se com mais gosto do que Herodes. Um pão de queijo no pé da serra desbanca o mais irretocável Boeuf Bourguignon. Uma caminhada ao lado de quem se ama sobrepuja o interior vazio de uma Ferrari. Um pé descalço é mais feliz do que o calça Mr. Cat. E assim por diante.

Texto de Paulo Brabo, disponível em www.baciadasalmas.com

terça-feira, 29 de junho de 2010

Variedade é Satisfação?



E o rei Salomão amou muitas mulheres estranhas, e isso além da filha de Faraó, moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias, das nações de que o SENHOR tinha dito aos filhos de Israel: Não entrareis a elas, e elas não entrarão a vós; de outra maneira, perverterão o vosso coração para seguirdes os seus deuses. A estas se uniu Salomão com amor. E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração. 1 Reis 11.1-3

   O desejo de uma pessoa pela variedade manifesta-se geralmente por meio de um comportamento obsessivo. A pessoa nunca se satisfaz, conforme provado pelos excessos da vida de Salomão. Lembro-me de, certa vez, ter passado a noite inteira com duas mulheres e, menos de 15 minutos depois de deixá-las na manhã seguinte, avistei uma prostituta pela qual eu era atraído e contratei seus serviços — eu não tinha ficado satisfeito o suficiente. Uma pessoa viciada na variedade jamais ficará satisfeita. Cada filme pornográfico só será excitante até ter sido "capturado" ou de alguma maneira experimentado, tornando-se depois obsoleto. Esses mesmos sentimentos podem ser atribuídos ao "Don Juan" que quer conquistar mulheres. Cada uma será usada até ele terminar com ela, e então ele procurará novas aventuras. A variedade é provavelmente a maior mentira que Satanás dá à atividade ilícita.

   Quando eu estava na minha vida de pecado, ficava obcecado pela idéia de um certo tipo de mulher, uma loira, por exemplo. Depois de seduzir uma e tê-la experimentado o suficiente para estar "satisfeito", eu me encontrava hipnotizado com o pensamento de um tipo diferente de mulher, talvez uma morena alta. Depois de seduzir uma morena, eu voltava a pensar em loiras, ou ruivas ou quem quer que fosse. Eu continuava a ser enganado, acreditando que, se eu pudesse ter um tipo particular de mulher, eu me satisfaria. Na realidade, nunca estava satisfeito, nem nunca estaria. A variedade é indubitavelmente a razão primária para a maioria do comportamento sexual ilícito. O mundo promove a variedade como o tempero da vida. Eu digo que essa é uma mentira vazia de Satanás.

Trecho do Livro:  No Altar da Idolatria Sexual do autor Steve Gallagher